O BAQUE VIRADO DO MARACATU
Os
maracatus ou nações, como preferem alguns autores, são
parte da mais pura cultura popular pernambucana. Desfilam ritmo e realeza
nos carnavais do Recife, descendendo das reuniões de negros escravos,
ou não, do século passado. Quem nunca ouviu falar do folguedo
nos carnavais recifences ou na cidade de Olinda?
Em Pernambuco, destacamos a existência de dois tipos de maracatu.
O de baque virado, com seus reis e rainhas, e o rural, aquele com os
tradicionais caboclos de lança e seus chocalhos. Este último
também é chamado de maracatu de "baque solto",
ou de "orquestra", mas que abordaremos numa outra ocasião.
Durante as festividades de Carnaval, não é difícil
encontrar um maracatu de baque virado e seus integrantes vestidos como
nobres da corte, enquanto os tambores soam alto e forte fazendo vibrar
as sacadas e igrejas do centro da cidade.
O foclorista, Roberto Benjamim, frisa em seu livro Folguedos e danças
que maracatu (nação africana) é um manifestação
criada pelos negros do Brasil - não existe na África nada
parecido. Sua origem está nas festividades católicas de
Reis Negros, influenciada pelos cultos afro-brasileiros. "Esta
ligação é tão forte que o maracatu tem sido
tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, é uma
manifestação lúcida, dos grupos religiosos de culto
gegê-nagô do Recife", diz .
Estas manifestações tiveram origem nas celebrações
de coroação dos chamados Reis do Congo. As festividades,
constantes nos arquivos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos. Outros grupos fazem referência à santa em seus
cânticos folclóricos. O maracatu permitiu aos negros viverem
seus momentos de glória e vestirem-se como em uma corte real
portuguesa, no Brasil. Recordando os longínquos momentos de liberdade.
TRADIÇÃO
- As marcas das tradições africanas estão incorporadas
e presentes nas apresentações. Assim como as características
das religiões afro-brasileiras, que com o fim da escravatura,
passaram a concorrer com o catolicismo. Isso provocou, novamente, a
perseguição destes cultos. O Estado Novo veio para tentar
dar o golpe de misericórdia no maracatu.
A tradição conseguiu ser mantida com dificuldade. Para
a escritora Katarina Real, o enfraquecimento das nações
se deve principalmente ao desmoronamento do orgulho de uma cultura africana
e o fim do matriarcado afro-brasileiro. A principal personagem das nações
é a rainha. Fazem parte do desfile, ainda, o Rei e toda sua corte,
seguidos pelos batidas percussivas dos músicos. "O maracatu
de baque virado, Estrela Brilhante, possui 40 músicos",
afirma um dos organizadores da agremiação lá do
bairro da Mangabeira, Seu Jair. Desta forma, ainda podemos encontrar
nos carnavais da cidade os tradicionais maracatus-nação,
em manutenção à cultura negra brasileira. Hoje,
os movimentos de cultura popular estão conseguindo respirar e,
a duras penas, conseguem colocar suas agremiações na rua.
PERSONAGENS,
INSTRUMENTOS E ADEREÇOS
1.
PERSONAGENS:
REIS
RAINHA - sempre negra
PRÍNCIPE
PRINCESA
DAMAS DO PAÇO (duas) ou DA BONECA - conduzem a boneca
DAMAS DO BUQUÊ (em número variado) - portam
ramalhetes de flores artificiais. DAMAS DA CORTE - conduzem taças
EMBAIXADOR (em algumas agremiações pode ser o porta-estandarte
- no Maracatu ESTRELA BRILHANTE, são personagens distintos. O
embaixador faz parte da corte) - veste-se como nobre da corte de Luís
XV
PORTA-ESTANDARTE
PAGENS - seguram as caldas dos mantos reais.
ESCRAVO - conduz o pálio, aquele enorme chapéu de sol
que proteje o rei e a rainha.
LANCEIROS - formam uma guarda, desfilam em cordões laterais,
fechando externamente o grupo.
BAIANAS - vestidas do moda tradicional das baianas. Traje ritual das
filhas de santo.
ORQUESTRA - composta unicamente de percussão.
CABOCLO DE PENA - o índio aparece em algumas nações.
Tem como função servir de guia e proteção
à nação africana.
2.
INSTRUMENTOS DA PERCUSSÃO:
MINEIROS
GONGUÊS
TARÓIS
CAIXAS DE GUERRA
BOMBOS
3.
ADEREÇOS:
ESTANDARTE
- com forma e bordados semelhantes aos das irmandades católicas.
SÍMBOLO - figura em massa em papier-machê. Se muito grandes
são carregadas em carroças.
BONECAS - tradicionalmente em madeira. Outros materiais vêm sendo
usados nos menos tradicionais.
Traje semelhante ao da dama que a conduz.
COROA - rei e rainha desfilam coroados. Em geral, em latão ou
arame a pedras.
DIADEMA - a princesa e algumas damas usam diademas adornados com pedras.
CETROS - rei, rainha, príncipe e princesa usam cetros, trabalhados
em madeira ou latão.
ESPADAS E ESPADINS - rei, rainha, príncipe e princesa conduzem
espadas ou espadins, em latão dourado ou prateado de tamanhos
variados.
MANTOS - rei, rainha, príncipe e princesa e, algumas vezes, a
boneca usam mantos.
BUQUÊ - algumas damas usam ramalhetes de flores de pano, papel
ou plástico.
TAÇAS - prêmios de anos anteriores, levados pelas damas
da corte.
UMBRELA ou PÁLIO - guarda-sol enfeitado por babados e franjas
e que protege o rei e a rainha durante o cortejo.
LAMPIÕES - luminárias a gás de carbureto ou velas,
necessários ao tempo em que o maracatu desfilava em ruas sem
iluminação.
LANÇAS - varas em forma de lança medindo cerca de dois
metros, conduzidas pelos lanceiros.
ORIGEM
DO FOLGUEDO
A
época em que surgiu o maracatu permanece sem uma definição.
Apenas a data de 1808 é comprovada e documentada como a mais
antiga referência do cortejo. Esta data, entretanto, não
estabelece, nem é tida como a da origem da manifestação.
É que o viajante Henry Coster, passou pela ilha de Itamaracá
no início do século passado e registrou o espetáculo
do rei do Congo e sua inigualável beleza. Portanto, quando foi
que apareceu pela primeira vez, ninguém sabe ao certo. Sabe-se,
porém, que há tempo, quando os escravos ou não
eram tidos como animais nas terras brasileiras e ansiavam por liberdade,
a sociedade da época precisava contê-los. Para isso, os
negros escolhiam um representante que seria encarregado de liderá-los.
Este era chamado de o rei da nação africana: o Rei do
Congo.
Esta instituição existiu em todo o Brasil Colonial. Possuía
o consentimento da igreja católica e dos senhores de escravos,
que pretendiam evitar as rebeliões concedendo privilégios
aos reis. A idéia possibilitou na verdade uma resistência
cultural dos negros em pleno período de repressão da raça.
Precisavam lutar pela sua sobrevivência e muitos fugiam. Desta
forma, os quilombos foram sendo fundados. Os Reis do Congo eram escolhidos
numa bela cerimônia que acontecia nos pátios de igrejas
católicas, ligada a Irmandade de Nossa senhora do Rosário
e ao culto de São Benedito. Os maracatus e afoxés nasceram
da união destas cerimônias às tradições
africanas. Com o fim dos Reis do Congo, a população negra
continuou celebrando a coroação através da dança
e da encenação. O baque virado das alfaias venceu o tempo
e os negros vestidos como numa corte real mativeram vivas suas tradições
e sua cultura.